segunda-feira, 28 de março de 2011

Roubo eletrônico

Na série de matérias, vimos como o e-commerce ganhou terreno e suas vantagens, mas não exploramos as suas desvantagens. Para tanto, entrevistamos o médico pelotense R. O.*, de 49 anos, e que sofreu nas mãos de criminosos virtuais, perdendo mais de 25 mil reais. As investigações que estão sendo realizadas neste mês indicam um envolvimento de compras online.

Jornalismo Digital - Quando você percebeu o crime?
R. O. - Agora, em março, dia três, estava acessando normalmente minha conta bancária do Banrisul através do meu notebook e percebi uma série de transferências que eu nunca tinha feito. Elas datavam desde janeiro de 2010 até novembro, mais de 100, cada uma tirando de duzentos a trezentos reais. Perdi, no total, quase 30 mil.

Na investigação da polícia, admitiram o envolvimento do crime com uma compra pela internet. O que lhe foi dito?
Sempre comprei pela internet. Meu filho foi um fator determinante, ele tem 20 anos e compra desde 2005 vários livros, eletrônicos. Eu percebi como era fácil e por vezes até ficávamos juntos durante a noite assistindo televisão e procurando pechinchas. O que me disseram, inclusive, depois que mandei procurarem por vírus no meu notebook, foi que estavam me monitorando, observando minhas transações, e pensaram: "Ei, esse cara tem dinheiro". Aí foi fácil, obtiveram meu cartão e senhas com um programa que eu não saberia dizer o nome e tiraram aos poucos para eu não perceber.

Mesmo com os procedimentos de segurança dos sites?
Sinceramente? Não acho mais que eles sirvam para muita coisa. Você digita seu cartão, certo? Meu filho disse, existem programas que podem saber o que você digita [keyloggers]. Não deve ter muito segredo perceber um número de cartão de crédito. Não deve ser nada difícil acessar uma conta virtual depois de ter o cartão. Aconteceu comigo e perdi 30 mil reais.

Você não tem medo de acontecer mais uma vez?
Não uso mais o meu cartão para as compras, mas também não posso parar de comprar. Tem coisas que só achamos online. Se tenho medo de acontecer? Claro. Quem gosta de perder dinheiro? Mas agora uso o cartão do meu filho. Deposito exatamente a quantia que vou gastar e utilizo o dele. Se ele sofrer o mesmo golpe, ele vai perder muito menos. Ele também sabe se proteger melhor. A geração dele é mais interessada nessas coisas. Eu só quero comprar com facilidade.

* - O médico pediu para não ser identificado, devido à exposição de valores.

Impacto no tradicional

Há muitos anos já vinha se observando a solidificação do comércio eletrônico. A logística melhorou, as ofertas aumentaram, os investimentos cresceram. Agora, é natural comprar online. Enquanto o e-commerce parou de ser novidade, o comércio local também perdeu espaço. O método tradicional de ir até o shopping ou as lojas da sua cidade e comprar o desejado ainda sobrevive, mas com menos força.

Encaremos deste modo: o comércio eletrônico virou uma tecnologia de conveniência. É mais conveniente ficar em casa e comprar o mais barato. É mais conveniente esperar um ou dois dias por algum produto que não seja de urgência (como eletrônicos e livros) chegar à sua casa do que ter de perder um tempo procurando, comprando e, em certos casos, transportando. É mais conveniente ter a privacidade da sua casa durante uma compra. É mais conveniente, então, utilizar o e-commerce.

Esse sucesso é uma reflexão, também, das características do mundo em que vivemos. A internet deixou de ser um fenômeno há muito tempo e passou a ser o padrão, a realidade. Somos, hoje, seres conectados. Nada mais natural que fazer nossas compras também conectados. O comércio local grita e reclama, mas pouco pode fazer. Hoje, toda e qualquer loja tem de ter um site. E este site, muitas vezes, também necessita ter uma seção dedicada às vendas.

Então, ao entrar na internet e começar a vender online, o fornecedor local ainda tem de enfrentar os gigantes. Enfrentar os populares sites de vendas, que oferecem tudo mais barato pelo simples fato de que podem arcar com lucros menores. Seu dinheiro vem da quantidade, não do preço. E o consumidor não se importa com isso, com justiça. Para ele, importa o preço, não o motivo de custar mais ou menos.

O comércio local não vai ser extinto. São 23 milhões de compradores eletrônicos, mas 190 milhões de brasileiros, 190 milhões de possíveis (futuros, presentes ou passados) consumidores. O comércio local vai se adaptar, como o ser humano fez em tantos outros casos. A oferta de produtos mudará, a internet ganhará espaço, é a mudança natural, mas a de serviços, por exemplo, pouco será afetada.

E, além disso, há pessoas que preferem o comércio tradicional porque sofreram com o e-commerce. Um médico pelotense de 49 anos é um exemplo. Acompanhe o seu caso aqui.

Virtual e exponencial

Você liga o computador. Abre seu navegador favorito. Acessa o Twitter, talvez o Facebook. Faz uma checagem rápida da caixa de e-mails, confere as notícias locais e do mundo, pára por um segundo e pensa se esqueceu alguma coisa. Então, lembra: eu estava realmente precisando de X. Abre uma nova aba, acessa um site de busca ou de comparação de preços e começa a comprar. X, nesse caso, pode ser qualquer produto, mas o meio de encontrá-lo vai ser o mesmo: a internet.

O e-commerce, ou comércio eletrônico, é o nome que define a prática de compra através da web. Desde 2004, quando faturou R$ 1,75 bilhão, o e-commerce nacional cresceu em uma escala gigantesca. O mercado amadureceu, teve mais lucro ano após ano, e, em 2010, venceu todas as expectativas - que previam entre 20 e 30% de aumento comparado a 2009 - e atingiu 40% de crescimento em um único ano, chegando aos R$ 14,8 bilhões. O ano de 2011 é encarado, já, como promissório. A expectativa, desta vez, é de um lucro de R$ 20 bilhões.

O número de consumidores também atinge níveis inesperados. Foram registradas 40 milhões de compras no ano de 2010, partindo de 23 milhões de consumidores. Em média, os compradores gastaram R$ 373 com cada compra. Entre os produtos mais procurados estão eletrodomésticos, livros, produtos de informática, eletrônicos, produtos cosméticos e medicamentos.

Um dos motivos para tanto acréscimo na quantidade de vendas são as inúmeras vantagens oferecidas. Uma loja online, por exemplo, está sempre aberta. Imagine mais esta situação: saiu do trabalho às 19h e encontrou o comércio da sua cidade fechado? Sem problemas. Em vez disso, acessa o Submarino (um dos mais populares sites de compras do Brasil) e escolhe com calma e tranqüilidade aquele livro que estava interessado há dias. Na saída, mais comodidade: rapidez na cobrança e segurança na hora de colocar o número do seu cartão de crédito.

Não bastasse essa praticidade, ainda há a diferença de preço. Eliminando o intermediário, o consumidor acaba pagando apenas pelo produto e pela entrega, e quase sempre termina por ser mais barato que nas lojas tradicionais. No exemplo citado, um livro, que custou menos comprado pela internet e entregado em até dois dias foi muito mais fácil do que ter ido até a livraria e comprado na hora. E você só esperou chegar. Sem precisar sair de casa.

A nova geração compra muito. E agora, compra muito pela internet. É fácil perceber. Mais um dado interessante: ao perguntar, rapidamente, para quatro jovens entre 20 e 22 anos por que eles compravam na internet todos deram a mesma resposta: "É mais prático, mais barato e mais fácil". No entanto, toda ação tem uma reação. O e-commerce cresceu. Como ficou o comércio tradicional?

terça-feira, 22 de março de 2011

Artesanal na Capital

O mercado de cerveja artesanal cresce no país, esquentando o comércio de cervejas especiais, com destaque para o estado.


Maltes, água, lúpulo e fermento. Enquanto a composição de uma cerveja é simples, há muito mais para aqueles que a tomaram por hobby. A produção de cerveja artesanal no Rio Grande do Sul cresceu muito nos últimos anos, e essa evolução e potencial motivam interessados no assunto.

Enquanto a cerveja artesanal cresce no país, ela também não deixa de ser um cenário de potencial, não de solidez. O atraso para a participação dos brasileiros nesse meio deve-se muito à cultura brasileira, onde as grandes cervejarias dominam. “O cenário atual é promissor. É um nicho de oportunidades, mas onde existe muito empirismo. O tempo vai moldar os padrões deste consumo no Brasil”, diz Eduardo Boger, médico de 42 anos, residente em Porto Alegre, que faz cerveja desde 2003 e em 2005 estabeleceu a cervejaria artesanal BSG com dois amigos.

Além da BSG, em Porto Alegre ainda há uma série de cervejarias artesanais ou micro-cervejarias de expressão, como a Coruja, a Whitehead, a Proust Bier e muitas outras. Em Pelotas, o cenário é muito mais limitado. Apenas duas cervejarias artesanais, a Süden Bier e a Mondi Bier, e uma micro-cervejaria, a Original Bier, se destacam.

“Pelotas não tem um potencial tão grande quanto Porto Alegre, mas eu não acho motivo nenhum pelo qual uma cervejaria não poderia ser bem sucedida aqui na cidade”, diz Maurício Thiel, cervejeiro da Süden Bier, fundada em 2010 junto de outros quatro amigos. “Além de nós [da Süden Bier], conhecemos muitas pessoas interessadas por cerveja. Temos que motivar o pessoal a provar, não podemos desistir sem tentar.”

Eduardo complementa: “Embora as grandes cervejarias dominem, são produtos distintos [cervejas populares e artesanais]. O carro popular chinês vai tirar espaço de quem anda de SUV? Não. Quem consume um, eventualmente consume outro, mas são focos distintos. A cerveja de consumo massivo apóia-se no marketing com apelo comportamental e inclusive sexual. A cerveja artesanal oferece qualidade e sabor.”


Negócio ou hobby?

Diferente dos Estados Unidos, um dos mais sólidos mercados de cervejas especiais, no Brasil é raro achar tantas opções. Lá, inclusive pelo tamanho do país, cervejarias são produtos locais, cada estabelecimento abastece uma cidade, mas sem excluir as grandes indústrias. Aqui, os cervejeiros se concentram em grandes cidades e nas capitais, como Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, e são minoria, apagados pelo monopólio das grandes cervejarias.

Do exterior, no entanto, podem-se citar as inspirações de quase todos cervejeiros. “Eles fazem uma fusão do tradicional com uma leitura muito particular, assimilando a cultura e ingredientes locais. Avery, Dogfish Head, Deschutes, Sierra Nevada, Russian River, Revolution, entre tantas outras que se destacam, são grandes cervejarias”, diz Eduardo. “Quando fazemos cerveja, nos baseamos no estilo da Brooklyn, de Nova York, da Chipswick, de Londres, e das cervejarias belgas e escocesas, como a Duvel, a Chimay e a Brew Dog.”, afirma Maurício.

De lá, também, vem o exemplo que Eduardo acha que os brasileiros cervejeiros devem seguir, para continuar imaginando um futuro promissor para seu hobby. “Os americanos estão trinta anos na frente. Eles têm uma forte influência de escolas inglesas e belgas, aqui no Brasil pensamos ainda que cerveja seja coisa de alemão”, diz. “Tem que acabar essa confusão, para mostrar que, realmente, a cerveja artesanal é um produto diferenciado.”

As cervejas artesanais e micro-cervejarias brasileiras crescem como nunca no mercado brasileiro, mas são apenas mais um reflexo da economia em ascenção do país. No futuro, talvez tenhamos, realmente, um público interessado em cervejas de alta qualidade, e o monopólio das grandes fábricas terminem. Enquanto isso, os apaixonados pela bebida, como os cervejeiros da BSG e da Süden Bier, resistem, sempre concentrados na qualidade do que servem: cerveja especial, diferenciada, feita à base de malte, lúpulo, água e fermento.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Embate ministerial: reforma prejudicada

Discussão sobre lei causa demissão de funcionário e incerteza no Ministério da Cultura.

A reforma da lei que cuida dos direitos autorais brasileiro transformou-se em um embate no Ministério da Cultura, com a guinada orquestrada pela ministra Ana de Hollanda. A partir da substituição de Marcos Alves de Souza, ex-diretor de Direitos Intelectuais do MinC, pela advogada Marcia Regina Barbosa, a reforma tomou uma nova orientação, sendo favorável à ministra na formulação da legislação.

Marcos de Souza preparava o projeto desde 2009 - inclusive passando por consulta pública - com uma série de aperfeiçoamentos na proteção ao autor e no sentido de trabalhos compartilhados e com destaque à atuação da cultura em rede cibernética. A ministra Ana de Hollanda ofereceu uma mudança de cargo a Souza, que negou e preferiu pedir a demissão. Marcia Regina é favorável aos ideais da ministra, que incluem o apoio à limitação das mudanças.

Enquanto a disputa pode ser considerada um retrocesso na construção de uma consciência cultural coletiva - explorando os novos meios de comunicação -, a decisão ministerial não passou despercebida. Dentre os protestos, amplas críticas ciberculturais e a ameaça de afastamento de 16 funcionários do Ministério da Cultura.

A briga é mais antiga que a situação atual. Com o novo governo, o padrão internacional de licenciamento de propriedade intelectual parou de ter o respaldo ministerial, e a confusão iniciou com a mudança de decisões da ministra, que, a princípio, apoiava os esforços em relação à reformulação da lei dos direitos autorais, desde que passasse pela criação de um órgão responsável pela distribuição de royalties para artistas.

O próprio governo derrubou a idéia da nova instituição regulamentadora, idéia defendida pela equipe de Marcos de Souza e rebatida principalmente por gravadoras, editoras e inclusive a Academia Brasileira de Letras. Marcos foi deixado para resolver sozinho as vozes contraditórias, que acabou gerando sua queda da diretoria.

A ministra não ignorou apenas o fato da reconstrução da lei, mas preferiu tomar o lado das vozes contraditórias, que incluiam instituições ligadas fortemente ao Ecad (Escritório Central de Arrecadação de Distribuição), órgão governamental que sofria o maior dos baques com a reforma. Possivelmente assustada com a repercussão entre grandes forças políticas, a ministra tomou as rédeas da situação - demitindo o diretor e colocando uma nova responsável, desta vez, favorável às suas pressões e opiniões.

A principal polêmica ainda não tem previsão de resolução, na qual o único projeto preparado ainda é o produzido pela equipe de Marcos de Souza, e a mudança de direção não prevê a releitura de extensivas pesquisas já feitas. O episódio foi sumariamente resolvido eliminando o elo mais fraco da disputa, e não tem, ainda, no horizonte, resolução favorável a todos os lados.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Inevitável Mundo Novo

Revoltas árabes e sua velocidade de alcance ao ocidente impressionam o mundo.


O inconformismo no mundo árabe tratou de mudar o panorama que há muitos anos continuava sendo constante. Desde o dia 14 de janeiro, revoltas populares derrubaram os ditadores Zine El Abidine Ben Ali, da Tunísia, e Hosni Mubarak, no Egito, e agora ameaçam terminar com o regime de 41 anos na Líbia, do ditador Muamar Kadafi.

Esta série prova como tornou-se difícil controlar o mundo atualmente, interligado pelo cibernético, e mais difícil ainda lutar contra revoltas de massa. O desejado sempre foi a queda dos governos totalitários, mas a facilidade de chegar à informação fora do país controlado apenas acelerou este processo.

Controle deficiente

O controle dos meios de comunicação de massa transformou-se muito desde a chegada da tecnologia. Enquanto era fácil mandar e desmandar na televisão estatal, controlar os canais disponíveis ao povo e limitar meios no rádio e jornal impresso, a internet vai muito além. Não tem um dono, não tem um líder, e não tem limites de alcance.

Tomemos como exemplo o caso do ditador Muamar Kadafi, no controle da Líbia desde 1969, e lutando contra os atuais revoltosos. Motivados pela queda dos chefes de Estado da Tunísia e do Egito, os líbios trocaram informações entre si através de redes sociais, buscaram angariar o maior número de pessoas e agora dominam cidades e pressionam a queda do ditador.

Kadafi, ao contrário dos ditadores anteriores, não desistiu da sua empreitada pela continuação no poder e investiu no uso da força bruta. O déspota chegou ao ponto de bombardear cidades do seu próprio país, dentre aquelas controladas pelos revoltosos.

Busca por igualdade

As revoltas não chegaram ao fim. No Bahrein, manifestações pela queda do monarca já se intensificam, e tudo indica que pode ser o próximo país a perder o totalitarismo para as revoltas populares.

Os árabes dos países revoltosos não aprovavam a manutenção dos déspotas de seus países, buscavam um governo justo, consciente, mas mesmo com essas vontades, apenas com o advento da internet essas revoltas tornaram-se possíveis. A força que os manifestantes angariaram, os ideais que patrocinaram essa revolução, todos encontraram um meio de comunicação em comum com a internet.

Essas revoltas, denominadas Revolução de Jasmim, são o equivalente à busca pela democracia no ocidente de centenas de anos atrás. E embora não tenhamos como saber o resultado, o fato é que um inevitável mundo novo acaba de florescer, e somos todos testemunhas. Graças à internet.