Maltes, água, lúpulo e fermento. Enquanto a composição de uma cerveja é simples, há muito mais para aqueles que a tomaram por hobby. A produção de cerveja artesanal no Rio Grande do Sul cresceu muito nos últimos anos, e essa evolução e potencial motivam interessados no assunto.
Enquanto a cerveja artesanal cresce no país, ela também não deixa de ser um cenário de potencial, não de solidez. O atraso para a participação dos brasileiros nesse meio deve-se muito à cultura brasileira, onde as grandes cervejarias dominam. “O cenário atual é promissor. É um nicho de oportunidades, mas onde existe muito empirismo. O tempo vai moldar os padrões deste consumo no Brasil”, diz Eduardo Boger, médico de 42 anos, residente em Porto Alegre, que faz cerveja desde 2003 e em 2005 estabeleceu a cervejaria artesanal BSG com dois amigos.
Além da BSG, em Porto Alegre ainda há uma série de cervejarias artesanais ou micro-cervejarias de expressão, como a Coruja, a Whitehead, a Proust Bier e muitas outras. Em Pelotas, o cenário é muito mais limitado. Apenas duas cervejarias artesanais, a Süden Bier e a Mondi Bier, e uma micro-cervejaria, a Original Bier, se destacam.
“Pelotas não tem um potencial tão grande quanto Porto Alegre, mas eu não acho motivo nenhum pelo qual uma cervejaria não poderia ser bem sucedida aqui na cidade”, diz Maurício Thiel, cervejeiro da Süden Bier, fundada em 2010 junto de outros quatro amigos. “Além de nós [da Süden Bier], conhecemos muitas pessoas interessadas por cerveja. Temos que motivar o pessoal a provar, não podemos desistir sem tentar.”
Eduardo complementa: “Embora as grandes cervejarias dominem, são produtos distintos [cervejas populares e artesanais]. O carro popular chinês vai tirar espaço de quem anda de SUV? Não. Quem consume um, eventualmente consume outro, mas são focos distintos. A cerveja de consumo massivo apóia-se no marketing com apelo comportamental e inclusive sexual. A cerveja artesanal oferece qualidade e sabor.”
Negócio ou hobby?
Diferente dos Estados Unidos, um dos mais sólidos mercados de cervejas especiais, no Brasil é raro achar tantas opções. Lá, inclusive pelo tamanho do país, cervejarias são produtos locais, cada estabelecimento abastece uma cidade, mas sem excluir as grandes indústrias. Aqui, os cervejeiros se concentram em grandes cidades e nas capitais, como Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, e são minoria, apagados pelo monopólio das grandes cervejarias.
Do exterior, no entanto, podem-se citar as inspirações de quase todos cervejeiros. “Eles fazem uma fusão do tradicional com uma leitura muito particular, assimilando a cultura e ingredientes locais. Avery, Dogfish Head, Deschutes, Sierra Nevada, Russian River, Revolution, entre tantas outras que se destacam, são grandes cervejarias”, diz Eduardo. “Quando fazemos cerveja, nos baseamos no estilo da Brooklyn, de Nova York, da Chipswick, de Londres, e das cervejarias belgas e escocesas, como a Duvel, a Chimay e a Brew Dog.”, afirma Maurício.
De lá, também, vem o exemplo que Eduardo acha que os brasileiros cervejeiros devem seguir, para continuar imaginando um futuro promissor para seu hobby. “Os americanos estão trinta anos na frente. Eles têm uma forte influência de escolas inglesas e belgas, aqui no Brasil pensamos ainda que cerveja seja coisa de alemão”, diz. “Tem que acabar essa confusão, para mostrar que, realmente, a cerveja artesanal é um produto diferenciado.”
As cervejas artesanais e micro-cervejarias brasileiras crescem como nunca no mercado brasileiro, mas são apenas mais um reflexo da economia em ascenção do país. No futuro, talvez tenhamos, realmente, um público interessado em cervejas de alta qualidade, e o monopólio das grandes fábricas terminem. Enquanto isso, os apaixonados pela bebida, como os cervejeiros da BSG e da Süden Bier, resistem, sempre concentrados na qualidade do que servem: cerveja especial, diferenciada, feita à base de malte, lúpulo, água e fermento.
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